A Carreira está interligada a outras esferas da vida

Por Vicky Bloch

Sempre que falamos dos dilemas femininos, um dos mais gritantes é a dificuldade em conciliar carreira e maternidade.

Por mais que a mulher seja uma executiva bem-sucedida e tenha total apoio para administrar as tarefas domésticas, parece que ela sempre carregará consigo a culpa de não se dedicar totalmente aos outros pratinhos que estão girando, em especial o dos filhos e da família. Carreira, nesse caso, não é um item isolado - ao contrário, ele estará sempre e totalmente interligado às demais esferas da vida.

Mas, no universo masculino, percebo que a visão da carreira ainda é, em grande parte dos casos, separada dos outros núcleos. Quando se faz a leitura de carreira, a referência tende a ser unicamente profissional, sem considerar que o ser humano é uma entidade única e que congrega várias relações que promovem um equilíbrio emocional e espiritual, como a família - seja o núcleo companheira/filhos (em um modelo tradicional) ou as raízes de pai e mãe -, os amigos e demais participações que se faz na sociedade. A essência do ser humano está em como ele vive intensamente todos esses núcleos.

Não é difícil de compreender essa postura: fala-se mais facilmente da carreira profissional até porque ela é mais estruturada, mais fácil de ser explicada e ocupa grande parte do dia dos indivíduos. Ela tem seu composto racional e, com isso, oferece maior segurança e controle. Muitas vezes, funciona como fuga em relação aos demais problemas.

Embora o discurso do balanceamento entre vida pessoal e trabalho tenha evoluído muito na última década e seja uma característica do perfil dos jovens que estão entrando no mercado de trabalho, vejo que tal preocupação ainda é pouco latente nas gerações que hoje ocupam as altas posições de liderança nas organizações.

Os aspectos familiares, emocionais e espirituais ficam em segundo plano e esse cenário só muda quando uma situação extrema desperta o indivíduo para a mudança: uma separação, uma perda, uma doença. Não se pode esquecer que todos esses círculos afetam também a carreira se não forem devidamente cuidados. Sim, existem exceções, mas permitam-me dizer que na prática, nas atitudes, realmente ainda são exceções.

Analisando esses fatores, eu pergunto: que ensinamentos devemos transmitir aos nossos filhos no que diz respeito à importância da carreira profissional? Que legado vamos deixar às próximas gerações? Acredito que a resposta seja formarmos uma geração mais consciente do seu papel cidadão, que consiga encaixar sua vida profissional dentro de uma composição fundamental de fatores como família, amigos, sociedade, espírito e saúde.

Devemos ensinar aos nossos filhos que tudo tem seu tempo; que todo o investimento realizado nas suas relações terá valido à pena; que eles fazem parte de uma sociedade e que precisam contribuir para este núcleo, independentemente do tamanho da sua ação.

É fundamental transmitir às crianças, desde pequenas, a consciência dos seus limites, dos limites do outro, dos valores. Parece óbvio o que estou dizendo, mas percebo que as famílias, com a desculpa da falta de tempo, têm se distanciado cada vez mais deste horizonte. Alguns valores estão se perdendo no meio do caminho. Não podemos nos esquecer que somente seremos capazes de sustentar o que falamos se formos modelo, se exercitarmos o que ensinamos.

Vicky Bloch é professora da FGV, do MBA de recursos humanos da FIA e fundadora da Vicky Bloch Associados